Na sola do pé

11Jul08

Costumo pensar na sua vergonha e falta de coragem para assumir seus erros. Imagino que, ao envergonhar-se consigo mesmo, você possa justificar sua ausência e eu possa aceitá-la. Afinal, você é responsável pelos seus atos e por todo o abandono que causou, certo?

Outro dia, já deitada para dormir, tive vontade de ouvir sua voz, de te abraçar e encaixar-me embaixo do seu queixo, de ouvir a sua risada e perceber as voltas da lente míope dos seus óculos. Mais uma vez, reprimi a vontade para conter a quantidade exagerada de lágrimas que eu desperdiçaria, e dormi.

Ontem, comentei sobre essa vontade e a saudade voltou. Lembrei de brincadeiras de dinheiro de papel, do enterro do meu avô, do meu elefante de pelúcia de patchwork, do Opala azul, do Fusca vermelho, do sítio, da porteira, das flores, do meu vestido verde, de tapa na sola do pé, já que eu teimosamente andava descalça em casa. As lembranças são sempre as mesmas, às vezes com mais algumas pessoas, às vezes só com você, às vezes sozinha. De todas elas, a que mais me incomoda é a que não consigo recordar, porque ela não existiu. Se, ao menos, tivessem existido mais momentos e histórias, tudo seria mais fácil.

Como quando ela me conta como vocês eram quando namorados, noivos e amigos. Suas atitudes, manias e trejeitos. Com as lembranças dela eu me construo a semelhança de vocês e tento ver em mim quais das suas melhores qualidades são as minhas também. Conheço poucas, minhas e suas, mas tento igualá-las. Até as que não me são agradáveis, como o costume de ser um tanto ríspida, e saber que você era assim. Prefiro manter comigo. Vem de família.

De qualquer maneira, há sempre outra forma de encarar a situação, principalmente quando ela dura 15 anos. Justamente. 15 anos. Assim, as coisas não acontecem ao acaso, mas por um caso. Para mim, o caso foi que eu não sei abandonar.

Não consigo.

Por mais que eu queira, a vontade de continuar fica, mesmo que guardada, até que dê por terminado o meu objetivo. Mas, eu não sou um ser humano capaz de agir dessa maneira sozinha. Não vim com essa característica pronta para uso, definida. Não.

Acredite, aprendi com você.

Descobri que a dor cria doenças e que nem sempre é bom estar com os olhos cheios d’água, nem sempre é bom ter o coração apertado, mas, talvez, seja melhor persistir. Percebi também que o abandono não é ruim para que é abandonado, para que sofre por ter ficado sozinho, mas para quem teve a capacidade de fazê-lo.

Ao final, soube que eu pensar aos 6 anos, aos 10, aos 15 ou aos 20, tudo o que poderia ter sido, não significa que somente eu possa mudar. Considerando ainda a minha idade e a reflexão decorrente dela, eu não tinha muito o que fazer. Agora, talvez tenha. Mas, para você, poderia ser mais fácil pensar em algo e mudar, já que era adulto.

Umas vozes me disseram que um dia, quando já tiverem mechas brancas em seu cabelo, você irá a minha porta. E eu abrirei. Já se passaram 15 anos, e com certeza, aos 48, você tem alguns fios descoloridos. Por hora, prefiro esperar. Talvez desafogar as palavras da minha cabeça em um texto seja uma saída para o momento. O orgulho também é de família.



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